• Valter Nascimento Coelho

A teoria da floresta negra da internet - novas formas de criação digital




Publicado também na edição nº9 da revista ComTempo


Dentre as inúmeras teorias sobre a internet uma merece atenção. Yancey Strickler possui um texto revelador sobre a chamada “ Teoria da Floresta Negra”. Uma ideia simples e bastante conhecida do público fã de sci-fi. O conceito se tornou popular depois do livro (excelente por sinal) O problema dos três corpos, do autor chinês Liu Cixin.


Segundo Liu, uma floresta durante a noite pode parecer um lugar sem vida, inabitado, mas se olharmos de perto iremos encontrar bolsões de vida em cada canto. Como durante a noite existe maior risco de predadores, os animais e insetos preferem se camuflar para se manterem em segurança.


Segundo alguns pensadores da física espacial, o universo seria como uma grande floresta negra cheia de vida em modo silencioso para evitar os olhares curiosos de possíveis predadores — no caso nós, os humanos.


A internet também pode ser vista como uma grande floresta escura e os anunciantes, spams, haters e coletores de dados são como os predadores. Num ambiente altamente hostil como o mundo virtual o que é melhor: fazer barulho e ser capturado ou navegar em modo oculto?



Podcasts, newsletters, canais no Telegram e outros ecossistemas


O crescimento do mercado de podcasts, e muitos outros modelos alternativos de criação de conteúdo, são exemplos de como os usuários estão se blindando contra a maré de chorume da internet.


Em tempos de fake news e buracos negros de desinformação a criação de pequenos oásis de informação confiável não é um luxo ou excentricidade, mas uma necessidade.

O podcast é o melhor exemplo de conteúdo de nicho que atinge seu público sem ser contaminado pelos predadores da web.


Não há espaço para comentários, banners de propaganda ou links perigosos. Apenas o encontro sincero e direto entre usuário e criador de conteúdo. Um casamento aberto sem a presença de laços desnecessários.


Newsletters, grupos e canais no Telegram, perfis fechados no Instagram, publicações no Medium e listas do Twitter são outras formas espontâneas de compartilhamento livre de ruído. Quanto maior a pressão da selva digital, mais recorrentes são os movimentos de êxodo do mainstream para o subsolo. E quanto os porões e selvas escuras se tornam “cheios demais”? Bom, como todo teoria a ideia da floresta escura da internet não é perfeita e acaba se convertendo num paradoxo peculiar.



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A teoria da caixa de papelão


Criei esta teoria depois de observar duas coisas que atraem minha atenção: gatos e usuários da internet.


Se você também tem um gato como eu já percebeu que eles não ligam para brinquedos caros. Não importa o tipo de brinquedo, se pisca, pula ou faz barulhos — o seu gato simplesmente se cansa dele em poucos momentos.


Isso serve para ilustrar um comportamento que ainda causa muita dor de cabeça para quem trabalha com mídias sociais digitais. Não importa que tipo de conteúdo você crie, o usuário irá se cansar dele. Isso acontece por conta de um fundamento básico da interação digital: o scrolling.


O ato de rolar o site até o final, de pular os stories, rolar o feed, tudo isso é parte da linguagem fundamental da internet. O meio digital é feito de novidade. Isso é uma benção e também uma maldição.


A parte boa é que se o meio virtual não fosse dinâmico não haveria mercado para a criação de conteúdo. Você não estaria lendo esse texto, nem estaria usando quaisquer apps ou sites. A parte ruim é que o conteúdo digital vem se tornando um brinquedo incapaz de manter a atenção do gato por muito tempo.


Quando a pressão no ambiente mainstream se torna insuportável surgem novos paraísos para que a mensagem encontre o seu público. Atraídos pela novidade os usuários passam a orbitar em torno de determinada rede. E então ocorre uma nova ruptura. Ou o formato cansa o usuário ou se torna novamente num ambiente hostil.


O mercado de podcast dá indícios de que em breve sofrerá uma ruptura, apesar de toda a novidade e originalidade em torno de sua estrutura.


Existe uma solução? Talvez sim. Digo “talvez” pois em termos de comunicação digital tudo é ainda muito novo e instável. A solução é a caixa de papelão da equação gatos x novidades.

As novas redes e formatos que sobrevivem ao fluxo repentino de usuários são como as caixas de papelão para os gatos. Gatos amam caixas de papelão, apesar delas serem simples, baratas e servirem, basicamente, para entrar dentro. Com o usuário digital não é diferente. Tudo o que eles querem de uma rede é:

  • Simplicidade (o Telegram, o Medium e as Newsletters são exemplos).

  • Barato (a nova rede deve ser acessível, preferencialmente gratuita).

  • Servirem para entrar (assim como um gato se sente seguro e confortável dentro de uma caixa de papelão, o usuário precisa de um ambiente que o caiba, onde ele possa entrar e sair com facilidade — falamos aqui de usabilidade).


O mercado da caixa de papelão


Uma caixa de papelão é para o gato uma novidade irresistível, simples, objetiva, confortável e capaz de criar um ambiente livre de perturbações. O mesmo ocorre quando buscamos ambientes alternativos e novas formas de conteúdo online.


Enquanto os grandes influenciadores gastam milhões em brinquedos caros, o pequeno conteudista digital proporciona singelos oásis a preço de custo. Aplicativos como o Anchor permitem que qualquer um crie um podcast em poucos minutos. Redes como o Medium abrem infinitas possibilidades de colaboração entre redatores. Compartilhadores de mensagens como o Telegram permitem grupos coesos em torno de qualquer assunto. Sites como o Substack proporcionam a criação de newsletters pagas por um preço simbólico.


Falando em Telegram, siga o meu canal.


A internet caminha para a criação de um grande “mercado de papelão”, onde cada um deverá criar não apenas o conteúdo ideal, mas o meio ideal para que esse conteúdo seja apreciado. Não se trata mais de brinquedos caros, mas de conforto, simplicidade e funcionalidade.

As regras do “mercado de papelão” são simples:


Menos distrações e ruídos. O canal precisa estar dentro do burburinho e ainda assim isolar o som ao redor.


Fácil de entrar, mais fácil ainda de sair. Os usuários não querem letras miúdas, interfaces complicadas nem contratos longos. Garanta que sua caixa de papelão é de fácil acesso e também de fácil abandono. Tentar prender o usuário só irá criar ainda mais resistência.


Baixo custo acima de tudo. O usuário poderá pagar pela sua caixa de papelão, desde que a relação valor x praticidade se justifique. Os serviços de assinaturas de newsletters e podcasts são exemplos claros. Mas cuidado: o que faz uma caixa de papelão ter valor é o fato dela não custar nada.


Funcionalidade atraente. Caixas de papelão são ambientes de linhas retas que abrem, fecham e dobram. Quanto mais comandos sua caixa tiver (imagine uma caixa com rodinhas) mais complicado será para mantê-la. A regra é a mesma dos brinquedos baratos: se a diversão depende de investimentos caros é sinal que ninguém estará mais se divertindo. Outro fator é a curva de aprendizagem: se o usuário precisa aprender a usar a sua caixa de papelão, esqueça.


Resumindo


A internet caminha para um movimento conflituoso, onde teremos de um lado grandes esforços para a criação de canais e conteúdos complexos, e do outro um investimento cada vez mais sólido em caixas de papelão — redes descentralizadas, plurais, simples e divertidas.

Para o criador de conteúdo isso representará um ponto de mudança em seu trabalho. Para o usuário será a chance de encontrar um conteúdo cada vez mais relevante e limpo.


O desafio está em fazer disso um modelo lucrativo, mas daí temos assunto para um outro texto.